28 outubro 2008

Para além da Branca de Neve

Ontem, dia 27 de Outubro, durante a tarde, realizou-se o II Seminário Forbev no auditório da Direcção Regional de Educação do Alentejo, sob a organização da Biblioteca Pública de Évora. O tema lançado para este ano foi "Literacia(s) e aprendizagem na biblioteca escolar" sob o título "Para além da Branca de Neve".

O seminário, que pretendeu reunir bibliotecários, professores, investigadores, autarcas e técnicos de educação, teve como objectivo focar a atenção dos papéis das bibliotecas escolares no apoio à literacia e/ou literacias da informação, ou seja, sublinhar a existência de outras literacias, nomeadamente a literacia da informação, e divulgar e discutir algumas práticas já desenvolvidas por bibliotecas do nosso país.

Aqui ficam uns breves tópicos das várias comunicações por sessão.


1ª Sessão

Literacia e aprendizagem na biblioteca escolar
Maria Teresa Calçada
(coordenadora do Gabinete das Bibliotecas Escolares, responsável pelo programa Rede de Bibliotecas Escolares e comissária adjunta do Plano Nacional de Leitura)

A literacia ou as multiliteracias exigidas para aprender e para aprender ao longo da vida têm e devem ser adquiridas precocemente e durante o percurso escolar, convocando para tal metodologias de pesquisa e de investigação que resultem do trabalho colaborativo da(s) biblioteca(s) com todos os elementos da escola, viabilizando-se, assim, a construção do saber.


Biblioteca, educação e literacia informacional em Portugal: resultados do projecto eLit.pt
Viviana Fernández Marcial
(consultora de investigação do projecto Literacia informacional no Espaço Europeu do Ensino Superior: estudo da situação das competências da informação em Portugal (eLit.pt), coordenado por Armando Malheiro da Silva)

O estudo apresenta resultados sobre o nível de competências informacionais dos estudantes portugueses no ensino secundário e superior. Estes mostraram um nível muito deficiente de competências cognitivas quanto à selecção, pesquisa, elaboração e filtragem de informação. Este problema obriga a pensar n carência de uma política educacional e bibliotecária/informacional que enquadre melhor e estimule uma melhor performance por parte dos estudantes.


Da Branca de Neve ao Wall-E: experiências de literacia(s) e novas modalidades de aprendizagem na Rede de Bibliotecas Municipais de Oeiras
Maria José Amândio
(coordena o Programa Copérnico na promoção de literacias de informação das Bibliotecas Municipais de Oeiras; é formadora no domínio das Bibliotecas Escolares, litearacias e ambientes digitais)

Nesta comunicação realizou-se uma retrospectiva das experiências da Rede de Bibliotecas Municipais de Oeiras em torno dos serviços direccionados para a promoção das literacias de informação e modalidades de aprendizagem com base no potencial das tecnologias da informação e comunicação (TIC) e ferramentas Web 2.0. Da Branca de Neve ao Wall-E, procura a analogia com a abrangência conceptual que compreende, desde as designadas literacias convencionais e elementares, associadas ao clássico conto de fadas, até à multiplicidade de literacias inerentes aos ambientes digitais e ao incentivo à criação textual, hipermédia e multimédia, simbolicamente representadas na história de animação que perspectiva o futuro da humanidade em 2700.


2ª Sessão


Formar para as Literacias
Carolina Cabaças
(desempenha funções na Biblioteca Escolar da EB1 de Castro Verde nos anos lectivos de 1996/97 e 2006/2009 e Professora do 1º ciclo do Ensino Básico na mesma escola)

Natércia Duarte
(Professora do 1º ciclio do Ensino Básico na EB1 de Castro Verde)

A Biblioteca da EB1 de Castro Verde tem desempenhado um importante papel ao longo dos últimos anos na dinamização de projectos orientados para a formação global dos alunos, através de um trabalho articulado com os professores/educadores no âmbito da Área de Projecto. Após dois anos de desenvolvimento do Projecto "Vamos contar... História", que abordou essencialmente a temática da História de Portugal, considerou-se pertinente complementar o mesmo com um novo projecto, desta vez orientado para o estudo do património natural, histórico e cultural português, uma vez que o seu reconhecimento e valorização é actualmente uma das competências gerais do 1º ciclo do Ensino Básico, estando presente ao longo dos quatro anos de escolaridade.


A biblioteca escolar a serviço da aprendizagem
Carlos Dinis Pinheiro
(coordenador da Biblioteca da Escola EB 2,3 Padre Alberto Neto em Sintra, coordenador local das Bibliotecas Escolares do Concelho de Cascais na RBE)

Diversos estudos mostram inequivocamente que as Bibliotecas Escolares podem contribuir de forma clara para o ensino e a apredizagem, podendo-se mesmo estabelecer uma relação entre a qualidade do trabalho na Biblioteca e os resultados escolares dos alunos. A emergência de novos ambientes e formas de aprendizagem colocam às bibliotecas e aos professores novos desafios e novas responsabilidades. Às potencialidades e requisitos do novo contexto devem corresponder estratégias que, na prática - através de filosofias de funcionamento renovadas e mais flexíveis, de novas competências e de novos serviços - permitam diversificar e reforçar o campo de acção da biblioteca, enquanto mediadora de conhecimento e instrumento de aprendizagem.


Bibcom.Évora - cooperar, divulgar, aprender
Isabel Fernandes
(coordenadora da BE/CRE da EBI André de Resende, pertence ao secretariado do Forbev e à equipa do projecto Bibcom)

Fernando Gameiro
(professor do Ensino Secundário, investigador do CIDEHUS e coordenador do projecto Bibcom.Évora)

A promoção e a visibilidade junto da comunidade das boas práticas que proliferam nas bibliotecas cooperantes, ou mesmo na divulgação de iniciativas ou de produtos, tem-se revelado muito difícil para além das comunidades escolares restritas. O projecto Bibcom - promover e integrar as bibliotecas escolares na comunidade - premiado na Candidatura de Mérito da Rede de Bibliotecas Escolares 2008 -, propõe ultrapassar estes obstáculos apostando em duas áreas de acção. Primeiro, a criação de uma infra-estrutura informática física que suporte uma plataforma electrónica de referência, permitindo a colaboração efectiva entre escolas; segundo, concentrar num portal web os sítios, os catálogos e as actividades estruturantes desenvolvidas pelas bibliotecas, promovendo a troca de experiências e apostando na autoformação.

25 outubro 2008

Uma "viagem" poética através da obra de Cecília Meireles

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


Este poema mostra o centro da inspiração da poetisa brasileira Cecília Meireles, o qual revela a sua atitude perante o mundo e a sua atitude para consigo própria. Segundo Sophia de Mello Breyner Andersen (in Cidade Nova. IV série, nº6 (1956), p. 342), a sua poesia é construída de dualidades, é um equilíbrio de oposições e uma harmonia de contrários. É uma poesia ao mesmo tempo clássica e romântica, objectiva e subjectiva, serena e desesperada, intemporal, desligada, distante e humanamente cheia de paixão e lágrimas. É uma poesia suspensa entre reinos divididos que tem de procurar constantemente a sua unidade, resolver a sua divisão, reunir os seus membros dispersos.

Foi através de alguns textos seleccionados pelo leitor-guia Fábio Mário Silva e a leitura dramática do PIM Teatro que os participantes da Roda de Leitura viajaram ao mundo poético de Cecília Meireles. Esta viagem teve lugar no passado dia 23 de Outubro à noite na Sala de Leitura da Biblioteca Pública de Évora.

Os poemas escolhidos pelo leitor-guia, interpretados por alguns elementos do PIM Teatro, deram mote a acesas discussões e partilha de sentimentos. Durante cerca de duas horas Fábio Mário Silva mostrou que a obra de C. Meireles é um projecto literário consistente e diversificado e que deveria merecer mais a atenção em Portugal, onde nem sequer existe a sua obra completa editada.


14 outubro 2008

Comunidade de Leitores: 2ª sessão

O quadro A Ronda da Noite, pintado por Rembrandt em 1642, e que deveria antes ser conhecido por A Companhia de Frans Banning Cocq e Willem von Ruytenburch, representa uma companhia de milicianos encabeçada por ricos mercadores de Amesterdão, pintada de forma dinâmica, prestes a marchar, ao invés de ser retratada em fila ou no banquete anual, como era convenção na época.

Este é o pano de fundo para a mais recente obra literária de Agustina Bessa Luís. A escritora octogenária desfia ficcionalmente a história da família Nabasco que possui há várias gerações uma cópia deste famoso quadro. A controvérsia que envolve a obra de Rembrandt, transparece nas vivências, amores e dramas desta família. O último membro dos Nabascos vive e morre a obsessão da interpretação do quadro.

Foi esta a obra que animou a segunda sessão da Comunidade de Leitores do dia 1 de Outubro, moderada por Helena Vasconcelos. Mais uma vez a sessão mostrou-se muito animada deixando um convite para a seguinte, que se realizará já amanhã, dia 15 de Outubro, com a obra Retrato de um jovem artista de James Joyce.

Não perca!

13 outubro 2008

Não se nasce leitor

O leitor não nasce, faz-se; mas o não leitor também: fazemo-nos leitores ou não leitores com o passar do tempo, no decorrer de um processo formativo no qual intervém o desenvolvimento da personalidade, e no qual vivenciamos experiências leitoras motivadoras e desmotivadoras, quase sempre em dois únicos contextos, o familiar e o escolar.
Pedro Cerrillo

Nos passados dias 10 e 11 de Outubro a Biblioteca Pública de Évora recebeu Rui Marques Veloso, mestre em literatura infantil, para formar essencialmente animadores socio-culturais, bibliotecários, educadores, professores e técnicos de bibliotecas a serem mediadores de leitura.

Durante quinze horas os formandos tiveram conhecimento da realidade dos níveis de literacia em Portugal, passaram a dominar as premissas que norteiam a promoção da leitura, aprenderam a definir estratégias conducentes a uma efectiva educação estética, aprofundaram os saberes relativos à literatura para crianças e jovens existentes em Portugal e no estrangeiro e ficaram a saber animar uma colecção de livros ou uma pequena biblioteca.

O formador Rui M. Veloso esteve em permanente reflexão com os formandos para a capitalização dos seus saberes e experiências, e fê-los ter um contacto directo com numerosos títulos de literatura infantil de diferentes géneros e temáticas (albúns, contos tradicionais e modernos, poesia, drama, romance). Foi dado ainda ênfase especial à ilustração destas pequenas grandes obras, em que um livro infantil deve ser considerado no seu todo como uma obra de arte (texto, grafia, ilustração).

Da mesma forma que revelou serem essenciais duas palavras na sua vida - Amor e Humor -, Rui Marques Veloso conseguiu transparecer esta filosofia para os formandos e motivá-los a pô-la em prática como mediadores de leitura para crianças. No dia 28 de Novembro, a BPE voltará a ter o prazer de receber este mestre em literatura infantil nas V Conferências do Cenáculo.

Cultivar a imaginação é aumentar a nossa capacidade de conhecer e compreender a realidade.
Georges Jean

visões, neurónios & afectos